Sustentabilidade e Inovação: O que Portugal Agrega à Indústria Têxtil e da Moda
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Portugal virou um case de sucesso mundial dentro dos segmentos têxtil e moda, sendo referência quando o assunto é inovação. Veja neste artigo como que o país superou a crise e voltou ao topo.

O mercado da moda passou por mudanças drásticas do último século até hoje. Com o surgimento do modelo fast fashion de produção e venda e a ascensão da China como maior referência da indústria mundial, o que se entende por moda, atualmente, é um fenômeno caracterizado por mudanças constantes e um alto volume de transações globais.
Dentro desse contexto, os polos de indústrias têxteis ao redor do mundo possuem suas demandas e qualidades específicas, fazendo o país ser conhecido por tal característica. Por exemplo: a China é conhecida pela produção acelerada, o Brasil, por sua produção e exportação de algodão e Portugal, por sua qualidade e reinvenção dos clusters têxteis, um case muito relevante para o setor e que será analisado neste artigo.
Portugal é um país com uma população menor que a da cidade de São Paulo e é, ainda assim, uma das maiores potências no mundo dentro do mercado da moda, batendo o recorde de volume de exportações em 2021, em 5,4 Bilhões de Euros. Como que o país conseguiu superar a crise no início do século, com inúmeras fábricas fechando suas portas e trabalhadores sendo despedidos, e assumir a posição de um dos principais fornecedores de têxteis de alta qualidade no mundo? Vamos responder a estas perguntas ao longo do texto.
Portugal: uma história conturbada para a indústria têxtil
Os primeiros registros de fábricas da indústria têxtil e de couro em Portugal não são nada recentes e isso só mostra como a expertise do país possui uma longa história e experiência. As primeiras fábricas têxteis que se consolidaram em Portugal foram as de linho e lã, no Século XIX, além de já existirem artesãos que produziam artigos em couro. Essas fábricas e artesãos importavam a matéria-prima de países vizinhos, como Espanha, França e Alemanha, trabalhando e tratando-a no país. Isso levou ao país, desde cedo, ter um polo de fábricas têxteis que se especializaram na cadeia de tratamento dos materiais, terminando com o produto final.
Um século depois, Portugal já era referência na Europa para a fabricação de produtos têxteis baratos e rápidos, sendo chamada, às vezes, de “China da Europa” devido ao baixo valor agregado de suas exportações. Esse cenário perdurou até a década de 90, pouco tempo antes da OMC admitir a entrada da China no grupo, o que permitiu o seu livre comércio de roupas globalmente e diminuiu drasticamente os pedidos de Portugal, enfraquecendo a sua indústria. Com a China detendo o pódio de maior exportadora de produtos têxteis no mundo, devido à sua produção acelerada e em grande escala, Portugal não teve espaço para competir e teve sua indústria enfraquecida.
Por conta disso, o país da Península Ibérica passou por uma forte recessão econômica no início do Século XXI e teve de fechar inúmeras fábricas, o que quase levou ao seu encerramento do setor têxtil. Este cenário atingiu seu pior número depois da Crise de 2008, que afetou diretamente a indústria têxtil e vestuário (ITV), batendo recordes negativos de exportações e produção.
Depois desse colapso, a ITV portuguesa precisou se reinventar. A solução para esse problema resultou em um enorme case de sucesso, reconhecido mundialmente, e que colocou Portugal novamente no radar de sourcing para grandes empresas de moda.
Inovação e capacitação: como Portugal solucionou seu problema
As indústrias têxteis de Portugal ficam localizadas ao norte do país, e, hoje, fornecem produtos finais ‘Made In Portugal’ para o continente europeu inteiro, principalmente para a Espanha, sua vizinha. A sua relação com o país espanhol foi fundamental para o crescimento econômico português e para a virada de posicionamento da indústria, tudo isso graças à gigante e pioneira do fast fashion, Zara.
Portugal mudou seu modelo de produção, indo de commodities e produtos de baixo valor agregado à uma produção de qualidade e alto valor agregado, atraindo distribuidores e marcas de moda de países do continente europeu, como a Zara, que estava em busca de produtos com maior informação de moda e tecnologia, mas que mantivesse o baixo custo e a rápida produção e entrega, já que a mão de obra também era relativamente mais barata em comparação a outros países vizinhos.
A Zara buscou, em Portugal, um sourcing de maior qualidade em seus produtos mais robustos, porém, continuou importando da China os produtos tidos como “básicos”, mantendo uma relação comercial com ambos os países. A procura da empresa espanhola pelas indústrias portuguesas se deu por fatores de condições geográficas: o centro de distribuição (CD) da Zara localiza-se ao norte do país, em Arteixo, próximo ao polo industrial têxtil de Portugal. Com a alta demanda de produtos de maior valor agregado e com maior informação de moda, os clusters têxteis de Portugal tiveram que atualizar seu parque fabril e capacitar seus colaboradores para garantir a expertise e qualidade em seu trabalho para o produto final. Essas mudanças impactaram positivamente a reputação do setor têxtil do país, tornando-se um dos maiores fornecedores do continente europeu para seus países vizinhos.
Com isso, a indústria têxtil de Portugal virou referência em tecnologia e inovação, especialmente nas áreas de tecelagem e malharia. Essas novas oportunidades para o país o fizeram virar um exemplo de nearshoring, uma estratégia de supply chain management (SCM) que visa buscar fornecedores de locais mais próximos, mantendo o mesmo padrão de preço e qualidade, sem ir atrás de países do continente asiático, especialmente a China. Essa prática expandiu nos países europeus no período da COVID-19, quando diversos canais de transporte e logística foram interditados, para evitar a dispersão do vírus. O nearshoring praticado na indústria têxtil em Portugal também serve como exemplo de sustentabilidade, já que o trânsito desses produtos é mais rápido e consome menos energia. Atualmente, Portugal fornece para diversas marcas europeias, como a Zara e a COS, e algumas de luxo, que procuram uma versão mais barata do couro italiano em curtidores e artesãos portugueses, sem pecar na qualidade.
Um exemplo a ser seguido
O caso de Portugal nos mostra que é possível, como Nação, reestruturar e investir em setores fabris para atingir uma projeção mundial e se tornar referência em segmentos específicos. Portugal ainda não é um país que exporta moda (não existe nenhuma Maison de luxo oriunda do país), mas é um país primordial e dos mais requisitados para a cadeia têxtil da Europa e outros continentes. É necessário relembrar que Portugal se beneficia geograficamente pela proximidade com os países europeus, reconhecidos internacionalmente pela sua produção de moda, e por fazer parte do bloco da União Europeia, o que o faz estar sujeito a diferentes leis e requisitos pertinentes ao bloco, como a obrigatoriedade dos Digital Product Passports.
O setor industrial têxtil brasileiro pode se inspirar no case de Portugal e tentar reconhecer quais são as oportunidades comerciais próximas ou mais cabíveis ao país para se aprimorar e fortalecer o segmento nacional. Não apenas tomando como base as fábricas de tecidos, mas, sim, todas as outras envolvidas na produção de moda, afinal, o Brasil possui a maior cadeia têxtil do Ocidente. Oportunidade não falta, e o país pode se beneficiar e muito dessas condições. Sabendo disso, o escritório especializado em negócios da indústria têxtil nacional, Fashion Innovation Business, organiza missões para empresários brasileiros do ramo têxtil para conhecerem o parque fabril português e trazerem insights para a indústria nacional, inspirando-se nos modelos de negócio que foram realizados no exterior afim de conseguirem trazê-los para o país.
Mesmo que os cenários industriais e de investimento sejam diferentes, ainda é possível referenciar-se no país lusófono e trazer inovações para o Brasil, especialmente quando o assunto é tecnologia e sustentabilidade.
Aprofunde o seu conhecimento!

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